OPINIÃO DE CÉLIO FURTADO : MORADORES DE RUA

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Célio Furtado – Engenheiro e professor da Univali celio.furtado@univali.br

Leio no noticiário que a cidade de São Paulo tem uma população de 24.000 moradores de rua, um fato triste e relevante. A notícia surge nessa manhã fria de julho catarinense, as mãos ainda encarangadas e os pés gelados do frio, no conforto singelo de minha casa, enquanto ouço um som de saxofone/jazz.

Sabemos que a desigualdade social é um fato concreto que merece a atenção e respeito de qualquer cidadão; deveria ser a essência de qualquer ente civilizado, o foco central de uma reflexão filosófica.

Naturalmente, sempre há a tentação demagógica, um dos temas prediletos dos palanques políticos, porém, precisamos restabelecer como meta central o que se denominou “Fome Zero”.

A minha concepção de desenvolvimento nacional, fundamentada na produtividade, na modernidade tecnológica, na inserção bem sucedida na comunidade internacional, pressupõe, inicialmente, uma tomada de atitude pública, suprapartidária, num esforço coletivo para suprimir e erradicar a miséria em nosso país. Uma famosa canção já dizia “pelos campos, há fome em grandes plantações…”, um convite a pensarmos nossa história politica e econômica, fundamentada em seus primórdios, nos latifúndios e na escravidão de seres humanos, sequestrados na mãe África e comercializados enquanto mercadorias sofisticadas.

Não devemos perder de vista o imortal poeta Castro Alves e o seu (nosso) “navio negreiro”.

Essa significativa população de moradores de rua, verdadeiros zumbis, “mortos-vivos”, são seres humanos, criados a semelhança do Criador, criaturas que carregam no peito, a chama da eternidade, todos são convidados ao “banquete eterno”.

Por detrás de cada um deles, moradores de rua, existe um operário desempregado, situações familiares complexas, dramas existenciais, drogas e alcoolismo, gente que se perdeu nos atalhos da “grande estrada da vida”.

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Todo empenho econômico de desenvolvimento precisa ter um viés distributivista, solidário, por isso precisamos de uma economia forte dentro de um estado forte, todos vimos a importância do SUS, nessa terrível pandemia que nos assola, com a trágica estatística de mais de meio milhão de mortes.

Com toda a certeza, uma concepção neoliberal de mercado e estado, não protegeria os desvalidos e “barrados no baile”, por isso temos que ser pragmáticos no management, na visão estratégica empresarial, porém, no coração, temos que ter muita compaixão, senão a vida perde o seu sentido.

Temos que nos espelhar nos modelos econômicos que suprimiram a miséria, colocaram como prioridade a erradicação de bolsões de miséria, países como o Japão, a Alemanha e a China comunista, como exemplo. São modelos de alta produtividade, vanguarda tecnológica e, adeptos do “Fome Zero”, conseguiram equacionar desenvolvimento e bem estar social, algo perfeitamente factível e viável em nosso país.

A recente CPI do Congresso Nacional, ainda inconclusa, tem revelado bastidores de negociação, busca de vantagens pessoais em algo tão sagrado que é o medicamento para salvar vidas, atitudes tão desumanas e impatrióticas.

Não adianta se enrolar em bandeira nacional, colorir os rostos, carreatas barulhentas, se não nos concentrarmos na angustiante realidade de milhares de brasileiros deserdados, moradores de rua, fato injustificado para um país que é “gigante pela própria natureza”.

 

Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br


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