OPINIÃO DE CÉLIO FURTADO: ESCRITA/ PANDEMIA

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*Célio Furtado
Engenheiro e professor da Univali
celio.furtado@univali.br

Escrevo nessa manhã de inverno, no meio do ano, ouvindo uma música suave de um afinado violão. Música e escrita sempre estão juntas no meu processo criativo, ajudando a colocar no papel algumas ideias que me ocorrem espontaneamente, sem pressa e  motivado em poder ser útil a quem ler o meu texto. Gosto de escrever, um hábito que me acompanha por várias décadas, como se eu estivesse sempre preparando uma “redação escolar”, obedecendo aos preceitos normais de correção, coerência e concisão, evitando expressões grosseiras, procurando à medida do possível, ser verdadeiro.


 




A elegância na escrita é o resultado de um estilo que possa transparecer a autenticidade, sem “forçar a barra”, sem inventar coisas. Sabemos, desde pequeno, que “a mentira tem pernas curtas”. Busco sempre que possível a correção gramatical e sintática em respeito ao leitor e, basicamente, como um gesto de amor à língua pátria, a nossa bela língua portuguesa, “ultima flor do Lácio”, um latim corrompido que se formou em nossa mãe Portugal, berço principal da nossa civilização.

Sinto, no meu estilo, a influência da educação salesiana, muito forte, presente nos meus juízos de valor, no modo de ver o mundo, inevitavelmente, uma influência dos “filhos de Dom Bosco”. Porém, seria injusto se não mencionasse o Grupo Escolar Victor Meirelles, com as suas competentes professoras, com as quais fui me aperfeiçoando nos fundamentos da Linguagem, desde a mais remota alfabetização até as necessárias redações escolares.

Ali, na minha formação primária, encontrei um cenário perfeito, quase um conto de fadas, o sino, o porão do grupo, o “gabinete da diretora”, o pátio interno e os hinos à Bandeira, à Independência, à Santa Catarina, à Pátria. Cantar, estufar o peito e seguir o grande coral, formado por todos os alunos professores, nos sábados festivos.

Havia no recreio a merenda, principalmente o “tódi”, tomado nas canecas verdes, metálicas; tomado com gosto, “encher o bucho” e , se possível, repetir. De fato, não podia haver no mundo algo melhor do que o “tódi”. Ao lado da saída pelos fundos tinha o muro alto da Prefeitura, o lugar dos animais aprendidos, dos cavalos que puxavam as carroças do governo municipal.

Na saída, víamos os “carros de mola”, estacionados ao lado da Igreja Nova, e, na esquina, tinha o caldo de cana, onde um homem mudo raspava a cana com um facão. A volta era mais mágica ainda, o campo do Marcilio Dias, a avenida quase deserta, o terreno do Hospital Marieta, seu pomar. Havia os terrenos baldios, as tiriricas com as saracuras e muita cobra d’água.

Era inevitável o gosto pela expressão escrita diante desse cenário deslumbrante da década de 1960, em Itajaí. As mentes infantis encontravam a plenitude do sonho. O gosto pela escrita permanece.

 Hoje, um dia triste, em plena pandemia, onde mais de dois milhões de brasileiros estão infectados  e quase 80.000 pessoas já faleceram.

Cenário sombrio, nem a escrita alivia essa dor coletiva.

Apesar do drama concreto em que estamos vivemos, o que nos une são palavras!


Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br

 

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