Quanto custa uma cidade sem árvores?

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O Brasil aprendeu a calcular o custo das obras de concreto. Ainda precisa aprender a medir o prejuízo causado pela ausência de infraestrutura verde
  • Artigo| Por Charles Coelho| engenheiro florestal e diretor da Arboran

Quando o Governo Federal lançou o edital ArborizaCidades, destinando R$ 19 milhões para ampliar áreas verdes em periferias urbanas e enfrentar o calor extremo, fez mais do que anunciar um investimento ambiental. Pela primeira vez, a arborização urbana ganhou protagonismo como uma política pública de adaptação às mudanças climáticas. Não se trata mais de plantar árvores para embelezar cidades. Trata-se de prepará-las para sobreviver a um novo cenário climático.

É uma mudança importante. Mas ela ainda precisa chegar à forma como gestores públicos, empresas e a própria sociedade enxergam as árvores.

O Brasil sabe exatamente quanto custa construir uma ponte, duplicar uma avenida ou ampliar uma rede de drenagem. São investimentos considerados essenciais porque sustentam o funcionamento das cidades.

Mas, quando o assunto são árvores, continuamos fazendo a pergunta errada.
Quanto custa plantar?
Quanto custa fazer a manutenção?
Quanto custa podar?
Talvez devêssemos inverter a lógica.
Quanto custa uma cidade sem árvores?

A resposta aparece todos os dias, mesmo que raramente seja contabilizada.
Ela está na conta de energia que cresce durante as ondas de calor. Nas enchentes que se repetem após chuvas intensas. Nas internações provocadas por temperaturas extremas. Nas calçadas refeitas sucessivamente. Nas podas emergenciais. Na perda de produtividade dos trabalhadores expostos ao calor. Na desvalorização dos espaços públicos e no comércio que perde movimento porque caminhar pelas ruas se tornou desconfortável.

São custos que normalmente atribuímos ao clima, à infraestrutura ou ao crescimento das cidades. Mas poucos percebem que parte deles poderia ser reduzida por uma infraestrutura silenciosa, viva e extremamente eficiente: as árvores.

Durante muito tempo, tratamos a arborização como paisagismo. Enquanto isso, o mundo passou a tratá-la como infraestrutura.

Assim como uma galeria pluvial reduz alagamentos e um sistema de iluminação melhora a segurança, árvores prestam serviços ambientais que sustentam o funcionamento das cidades. Elas reduzem temperaturas, armazenam carbono, aumentam a infiltração da água no solo, filtram poluentes, oferecem sombra, favorecem a biodiversidade e contribuem para a saúde física e mental da população.

Não é uma percepção. É evidência científica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o acesso a áreas verdes reduz fatores de risco associados a doenças cardiovasculares, melhora a saúde mental, estimula a prática de atividades físicas e contribui para diminuir os impactos das ilhas de calor nas cidades. Em um cenário de envelhecimento populacional e aumento das doenças relacionadas ao clima, investir em infraestrutura verde também significa investir em prevenção e qualidade de vida.

O calor extremo, aliás, tornou-se um dos maiores desafios urbanos da atualidade.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2024 foi o ano mais quente já registrado desde o início das medições globais, consolidando uma sequência inédita de recordes de temperatura. Esse cenário levou governos de diferentes países a revisar suas estratégias de adaptação climática, incorporando soluções baseadas na natureza ao planejamento urbano.

O Brasil começa a seguir esse caminho. O próprio Ministério do Meio Ambiente justificou o lançamento do ArborizaCidades destacando a necessidade de reduzir os efeitos das ilhas de calor, especialmente em bairros periféricos, onde a ausência de cobertura vegetal torna a população ainda mais vulnerável aos eventos climáticos extremos.

Mas existe um ponto que merece atenção.
Plantar árvores não basta.
É preciso planejá-las.
Talvez esse seja o maior desafio da arborização brasileira.

Quando uma raiz rompe uma calçada ou uma árvore interfere na rede elétrica, costuma-se culpar a espécie. Na maioria das vezes, porém, o problema começou muito antes: na escolha inadequada da árvore, na falta de espaço para seu desenvolvimento ou na ausência de um planejamento técnico que considerasse as características daquela rua.

O problema, portanto, raramente é a árvore.
É a árvore errada no lugar errado.
E isso custa caro.

Municípios gastam milhões todos os anos com podas emergenciais, manutenção corretiva, reconstrução de calçadas e substituição de exemplares que nunca deveriam ter sido plantados naquele local. Esses recursos poderiam ser direcionados para ampliar e qualificar a arborização se ela fosse planejada desde o início como parte da infraestrutura urbana.

O mesmo raciocínio vale para as enchentes.
É evidente que árvores, sozinhas, não resolvem problemas históricos de drenagem. Mas elas reduzem o escoamento superficial da água, aumentam sua infiltração no solo e ajudam a aliviar a pressão sobre sistemas de drenagem construídos. Em outras palavras, trabalham em conjunto com a infraestrutura tradicional, tornando-a mais eficiente.

Outro aspecto pouco debatido é o impacto econômico da arborização.
Pesquisas internacionais mostram que ruas arborizadas estimulam a circulação de pedestres, aumentam o tempo de permanência das pessoas nos espaços públicos, fortalecem o comércio local e valorizam imóveis. Ambientes mais confortáveis também tornam as cidades mais competitivas na atração de talentos, investimentos e turismo.

A sombra também movimenta a economia.
Essa mudança de visão já orienta o planejamento urbano em diversas partes do mundo. Um dos conceitos mais difundidos atualmente é a Regra 3-30-300, desenvolvida pelo pesquisador e professor de silvicultura urbana Cecil Konijnendijk.

Ela propõe que toda pessoa consiga ver pelo menos três árvores da janela de casa; que cada bairro tenha, no mínimo, 30% de cobertura arbórea; e que todos os moradores vivam a uma distância máxima de 300 metros de uma área verde de qualidade.

Mais do que um indicador ambiental, essa regra traduz uma nova forma de pensar as cidades. Ela reconhece que árvores são infraestrutura urbana e que sua distribuição interfere diretamente na saúde, no conforto térmico, na mobilidade, na biodiversidade e até no desempenho econômico dos bairros.

O lançamento do ArborizaCidades mostra que o Brasil começa a compreender essa transformação.

Agora precisamos dar o próximo passo.
Não basta calcular quanto custa plantar árvores.
Precisamos calcular quanto custa não tê-las.
Porque toda cidade conhece o preço do concreto.
Mas ainda ignora o valor econômico da sombra.

Enquanto continuarmos tratando a infraestrutura verde como um detalhe paisagístico, seguiremos pagando uma conta invisível — em energia, saúde, enchentes, manutenção urbana, produtividade e qualidade de vida.
Talvez tenha chegado o momento de mudar a pergunta.

Não quantas árvores queremos plantar.
Mas quanto estamos dispostos a continuar perdendo por não tratá-las como parte essencial da infraestrutura das cidades.