Opinião de Célio Furtado: MARÇO/ INÍCIO/

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Célio Furtado – Engenheiro e professor da Univali celio.furtado@univali.br

O último final de semana de fevereiro foi especialmente chuvoso. Chuvas fortes e intermitentes, ventanias agitando as árvores do quintal e provocando, também, diferentes ruídos nos telhados, sons indecifráveis, talvez prenunciando um ano de maus agouros.

Sim, com o fechamento geral das atividades não essenciais (lockdown), a cidade fica praticamente deserta, poucos automóveis e gente na rua, resultando em uma paisagem urbana incomum.

Naturalmente, os ventos fortes nos evocam sempre os perigos no mar, as grandes ondas e a vulnerabilidade de nossos pescadores e demais trabalhadores do mar. Particularmente, os fortes ventos, as violentas ventanias me remetem à tenra infância, no início da década de sessenta, quando o meu pai trabalhava em barco de pesca, mais especificamente, o “Guarani iii”, investimento mais recente do seu João Antenor, provavelmente, o primeiro empresário da pesca em Itajaí.

 

Criança atenta e saudável, eu ouvia os relatos do meu pai sobre o terrível cenário de uma tempestade em alto mar, as incertezas, os temores mais profundos, as rezas e promessas que se fazem sempre, se aquele pesadelo acabar, o barco não afundar e a tripulação volta aos seus lares, sã e salva. Promessas sempre cumpridas, o alivio de avistar o Farol de Cabeçudas, a entrada da Boca da Barra, adentrar no rio Itajaí e pisar a terra firme. Já no rio avistar a Igrejinha velha, os barcos ancorados e, possivelmente, ouvir os sinos da Igreja nova, a nossa Igreja Matriz, pois, observem, ainda não havia os prédios abundantes em Itajaí, sendo ainda a maior edificação, o suntuoso Banco Inco.

Escrever é bom, dizem alguns que tem um certo efeito psicanalítico, pois sabemos que as “palavras são drenos”; a cura, possivelmente, reside na exposição corajosa e firme do que está enterrado nas camadas mais profundas da memória. Talvez frustre um pouco as expectativas da exatidão, da objetividade.

A chegada do pai é sempre emocionante, ao longe, pelo chão ainda não calçado da sempre bela avenida Joca Brandão, aproximando-se do seu lar, nossa bela casa, na frente da Cadeia Pública, próxima à rua 7.

 

Ainda está viva na memória a figura do meu pai, com a sua barba cerrada, numa mão a mala das roupas usadas no mar, vestes simples de operário, e, na outra mão, um saco cheio de peixes, das mais variadas espécies, tainha, naturalmente, se for o tempo das tainhas.

Peixes para a minha mãe limpar e distribuir para as pessoas amigas, vizinhas, pois não havia ainda chegado a geladeira, e o que se podia fazer era “escalar o peixe”, abrir, misturar no sal e pendurar nos varais, como se faz até hoje nas salgas.

A chegada do pai sempre era motivo de alegria, os pequenos presentes tão significativos; lembro-me, especialmente, da “mula manca”, um brinquedo que se apertava com o dedo e a mula dançava.

Adorava os relatos do meu pai, os perigos, as tainhas saindo da Lagoa dos Patos, a cidade do Rio Grande, Santos, e a sua paixão pelo Rio de Janeiro, a “Cidade Maravilhosa”.

Março, início!

 

Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br


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