Entrevista – “O interessante da Vela é que acabamos nos tornando uma “grande família” Dione Carabelli

0
53

 

Como é a vida de uma família que vive praticamente voltada para o esporte náutico. Que vive em várias cidades litorâneas do planeta, pois é – assim é o dia-a-dia da Família Carabelli. Quem conta com detalhes é a Dione Carabelli, companheira de Horácio Carabelli. Dione é responsável direta pela vinda da primeira edição The Ocean Race para Itajaí. Quando iniciamos a conversa, Dione estava no Brasil à negócios de família – mas a reencontrei dias depois na Itália – e avisando que estava preparando mudança para Nova Zelândia.

Adilson Pacheco – Editor

 

 

– Como é ser mãe, esposa e gostar do esporte náutico?

Dione Carabelli- O mar é fascinante e ter uma família ligada a ele é apenas ficar mais próxima dos desafios e dos deleites que ele traz. O interessante da Vela é que acabamos nos tornando uma “grande família”, onde sempre há um amigo, em qualquer lugar do mundo, com quem você pode contar. Lembro de uma amiga ter me dito isso anos atrás e de eu mesma ter comprovado que ela estava certa.

– Qual destes três é o maior desafiador no dia-a-dia?

Dione – Acho que o desafio é enfrentar a distância em tempos de competição. Especialmente quando os filhos são pequenos e o pai (como no meu caso) acaba passando longos períodos afastado da família, isso acaba gerando, de alguma forma, um sentimento de abandono nas crianças. O que não é verdade, mas sem dúvida, a ausência é sentida e deve ser trabalhada e compensada no retorno à casa.

  • Bom, um tripulante de uma regata fica semanas distante da família – é fácil está convivência.

Dione -Esse tempo longe da família não é privilégio deste esporte. As famílias se ajustam e tentam compensar a distância quando estão reunidas. Não diria que é exatamente fácil, mas alguém que se apaixone por um velejador competitivo precisa estar consciente que isso será parte de sua vida. E quem ficar em terra, se tiver filhos, precisará se dedicar em dobro a eles.

CNPJ – 38.992.581/0001-68

– O que é ser mulher de um velejador?

Dione -Ser mulher de um velejador, especialmente de alta performance como The Ocean Race é aprender a fazer as malas rapidinho, rsrsrs.. mas é muito instigante também. Eu sou grata pelas experiências vividas. Mesmo as mais difíceis são muito enriquecedoras .

– O lado positivo de ser uma família de um membro de um grupo de terra ou de bordo?

Dione -O lado positivo está nas experiências vividas, nos lugares que que conhecemos, nos idiomas que aprendemos e na imersão em outras culturas. Acho que isso é o maior legado para as famílias. Desbravar o mundo seja por mar, terra ou ar, muda as pessoas para sempre.

– Já navegou – ou é apenas uma observadora à distância?

Dione – Já naveguei algumas vezes, mas nunca competindo. Não sou boa nisso, mas aprecio muito.

– Bom, Horácio Carabelli – é um experiente profissional e um requisitado pelas grandes equipes – como é esta vivência?

Dione -Acho que a maior dificuldade é não poder voltar para casa como queríamos. Morar em tantos lugares diferentes e ficar longe os amigos e da família é o preço mais alto que se paga.


Mais Dione Carabelli

Horácio e Dione Carabelli: Eles provocaram uma parada da Regata The Ocean Race em Santa Catarina


 

 

Foto:Luna Rossa Challenge Prada Pirelli Team/Arte RegataNews

– Os filhos parece que se voltaram para o mundo náutico também?

Dione – Nossos filhos adoram velejar, mas não fizeram disso uma profissão como o pai. Salvo o mais velho, Nicolas que hoje é engenheiro Naval pós-graduado e trabalha na mesma equipe do Horácio, Luna Rossa Challenge Prada Pirelli Team, os demais, Bernardo e Gabriel velejam quando tem tempo livre e participam de eventuais campeonatos.

– Como começou esta história de ser companheira de um velejador, projetista náutico?

Dione -Pergunta interessante. Fomos apresentados por um amigo em comum, que na época era meu chefe e amigo do pai dele. Recebemos uma pequena missão de ambos que tinham um projeto em comum e nos puseram a trabalhar juntos nele. Deu certo!

–  Nesta sua jornada qual foi momento mais tenso de todas regatas?

Dione -O momento mais tenso de todos foi quando na Volvo Ocean Race de 2005/2006, um tripulante do barco holandês caiu na água e morreu. Foi quando descobri que a bordo havia um saco hermético para uma eventualidade como essa. Foi quando descobri que morrer era de fato uma possibilidade. Foi a única vez que pedi ao meu marido que voltasse pra casa e considerasse desistir da regata. Mas desistir não é para o Horácio Carabelli. Ele jamais abandona seu time ou seu projeto. Mesmo em momentos muito desafiadores, isso nunca aconteceu.

– Seu maior desafio?

Dione -Maior desafio? – A distância de quem você ama. Fazer as malas e deixar os filhos aos cuidados de alguém, porque nem sempre é possível carregá-los consigo. Isso partiu meu coração diversas vezes. E depois voltar para casa e deixar meu marido também. Foi sempre foi doloroso. Não lembro de um dia que tenha sido fácil.

– É fácil educar os filhos vivendo por curtos períodos em cada país?

Dione – Meus filhos sempre sofreram por deixar a escola e os amigos, mas também tiveram o privilégio de viajar e conhecer pessoas e lugares maravilhosos. De passarem por colégios internacionais e aprender outros idiomas. Fácil? Não. Mas eu faria de novo e acredito que eles também. Afinal, nossos amigos, nossa cidade e nossa família sempre nos recebem de volta de braços abertos.

– Como é esta trajetória de uma Riosulense – que hoje vive mais mar do que o verde do Vale do Itajaí?

Dione -. Eu amo o verde, as montanhas, mas hoje teria dificuldade em viver longe do mar. E não é porque sou frequentadora assídua de praia, mas porque gosto do clima litorâneo e de ver o mar quando acordo. Mas enfim, uma coisa que aprendi ao longo destes anos, é a me adaptar as circunstâncias.

-Qual livro estais lendo?

Dione -Estou lendo “Rumo à Estação Finlândia/ Edmond Wilson”

–Que tipo de comida gostas?

Dione -Adoro frutos do mar, um peixe branco no sal, casquinha de siri.. mas devo confessar que o gnocchi caseiro de minha mãe é o melhor do mundo.

 –  Seu maior medo?

Dione -Viver distante de minha família. Meu sonho é que possamos todos viver no mesmo país de novo. De preferência no Brasil.

– Uma mensagem para as mulheres do Brasil

Dione – Sua melhor amiga é você mesma! Busque conhecimento para dar o próximo passo. Não importa o que você faça, será mais fácil ter sucesso se estiver preparada. Se alguém duvidar de você, não se deixe abalar, tome como um desafio e siga em frente.

Dione e Horácio -Foto Arquivo de Familia

– Quem é Dione Carabelli?

Dione – Alguém que ama seus amigos e sua família acima de tudo e os leva consigo aonde for.  Que crê em Deus e tem crises de fé, mas que nos momentos difíceis se apega a Ele sem hesitar. Alguém que acredita que para mudar o mundo bastam pequenas ações a nossa volta,  pois elas geram uma onda do bem que pode crescer e virar um tsunami de coisas boas. Alguém que vive em constante aprendizado, e as vezes muda mesmo de ideia.