José Guilherme Caldas escreve sobre a conquista recente do Mussulo 40 – Team Angola Cables

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José Guilherme Caldas e Leonardo Chicourel venceram a Cape Town Rio no mês passado a bordo de um Class40.

O Mussulo 40 team Angola Cables levou nas duplas e no monocasco, andando mais que barcos mais rápidos

José Guilherme escreveu hoje uma coluna ao Diário LANCE!

Leia o material

No mês passado, eu e o velejador profissional baiano Leonardo Chicourel fomos bicampeões da regata Cape Town – Rio de Janeiro, também conhecida como Cape2Rio. Vencemos a travessia nas categorias monocasco geral e duplas! Completamos o percurso de 3.500 milhas náuticas entre a África do Sul e o Brasil pelo Oceano Atlântico em 17 dias, 01 hora, 06 minutos e 02 segundos a bordo do barco Mussulo 40 – Team Angola Cables, um projeto Farr, modelo Class40.

A regata em 2020 foi uma superação de nós dois, pois conseguimos chegar na frente de barcos mais tripulados e de alta performance. Um veleiro de quarenta pés vencendo barcos de 50 e até um maxi de 102 pés!

Nos preparamos muito bem e o barco foi muito bem ajustado. Neste aspecto os nossos “preparadores” e coaching – os experientes ingleses Paul Peggs, Josh Hall e Pip Hare – foram fundamentais. Há que citar ainda Manuel Mendes dono do estaleiro em Cape Town que viabilizou toda a operação de preparação do barco.

Enfrentamos dias de ventos muito fortes e dias de calmarias, mas essa regata é uma velejada incrível. Aos 11 anos, ainda em Angola, presenciei a participação de um veleiro de uns amigos nessa regata e sempre foi um sonho participar dela! Jamais imaginaria que poderia ganhar. Já havíamos sentido o gostinho como dupla, mas realmente ganhar a regata no geral, como um todo, nunca passou pela minha cabeça. Reflete o trabalho de seis anos velejando junto através de diversos oceanos e o preparo impecável do barco.

O nosso objetivo nessa regata era vencer de novo em dupla e fazer uma regata tranquila. No entanto, após a largada fomos ultrapassando rapidamente os barcos maiores e supostamente mais rápidos e isso nos deu um alento extra. Acho que de dois virámos 4 ou 6 pilotando permanentemente trocando de velas frequentemente, dormindo apenas o essencial, dedicação constante e fomos mantendo a ponta nos distanciando progressivamente.

Algumas adversidades vieram se contrapor a este progresso inicial perfeito Primeiro o balão de vento forte que após uma rajada muito intensa se rasgou durante a noite e depois se enrolou no estai de proa tirando a possibilidade de usar outra vela de proa até amanhecer. Numa operação arriscada subi o Leo no mastro com ondas de 4 metros e ele cortou com uma faca o que sobrou permitindo navegar de novo.

O vento estava tão intenso que o tempo perdido só com vela grande não foi suficiente para nos atrasar. Alguns dias depois um objeto de plástico prendeu-se no driver e na hélice, o que comprometeu de forma importante nosso desempenho e pela primeira vez perdemos a liderança até que conseguimos descobrir o problema e solucioná-lo. Na chegada ao Brasil uma tempestade intertropical com ventos de até 50 nós, ou seja, ventos de 100 km por hora, foi algo a ser superado mas novamente confiamos no barco, enfrentamos e superamos mais esse desafio. Era a nossa chance de recuperar e provar que para vencer esse desafio, mesmo em dupla há que se esforçar em dobro.

Obrigado pelo espaço!

Prof. Dr José Guilherme M P Caldas
Neurorradiologia Intervencionista