OPINIÃO DE CÉLIO FURTADO :FIM DE JUNHO

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Célio Furtado – Engenheiro e professor da Univali celio.furtado@univali.br

Escrevo no finalzinho de junho, ouvindo violão, Andrés Segovia (1893-1987), tranquilo, despreocupado, na verdade, como se estivesse num desfecho favorável, uma travessia, uma chegada com o peito estufado de alegria e alívio.

É noite, o som do violão é inspirador, como se estivéssemos escrevendo no caderno de “Redações”, na estreia da caneta tinteira, com a letra adequada no formato do caderno de Caligrafia.

A escrita cuidadosa, para não borrar, para não suplantar os limites das linhas, pois, desde novinho, sabia que as paralelas se encontram no infinito.

Os temas surgem, nem sempre explícitos, sabemos que o pensamento se parece com uma floresta escura, com alguns pontos luminosos, algumas clareiras e então encontramos alguma trilha perdida.

Gosto de escrever, um hábito antigo, botar no papel ideias, percepções momentâneas, alguns flashes que surgem e somem tal como os raios nas grandes tempestades.

Gosto da expressão: “isso foi mais doloroso do que parto de mamãe porco espinho”, porém, gente entendida no assunto me lembra que se trata de um parto normal, pois, na verdade, os filhotes nascem sem espinhos.

Porém, foi doloroso sim, não posso negar, muita ansiedade, muita energia despendida, contudo o resultado foi surpreendente, as luzes se acenderam, a travessia foi feita, talvez o tema da redação pudesse ser “a conquista do paraíso”.

O texto não pode ser apenas subjetivo, intimista, particular, tenho que olhar para fora e pensar o mundo, emitir pareceres e juízos, formular o que se denomina a análise de conjuntura, esse é o dever do intelectual, seu compromisso histórico com a democracia, a marcha do povo, o amadurecimento democrático, o avanço das conquistas.

Vivemos um recesso no pensamento dominante, uma tentação totalitária, uma expansão do que se denomina extrema direita.

A reação está aumentando, o equilíbrio do poder está mudando e partimos para o contra-ataque, e todas as pesquisas indicam que venceremos, e tal como diz aquela conhecida canção popular “amanhã vai ser novo dia”.

Interessante esse texto podia ser adaptado no contexto da década de setenta, quando eu escrevia na solidão do meu quarto no Alojamento de Estudantes, ouvindo jazz na Radio Jornal do Brasil, antes, talvez da chegada das Rádio FM (frequência modulada).

Sim, eu escrevia naquelas folhas de rascunho que eu pegava na sala do Computador Central da UFRJ, ao lado das perfuradoras dos cartões na antiga linguagem Fortran.

Aquela fartura de rascunho, papel à vontade me convidava a escrever, sem qualquer preocupação com objetividade, “escrever por escrever”, respirando o ar poluído da baía da Guanabara, as praias da Ilha do Fundão, o mar e o cálculo que eu poderia de ali chegar a Itajaí, navegando e, surpreendentemente, entrar na boca da Barra, parar no molhe e vir a pé com a mala e chegar em casa.

Sim o texto era aberto, múltiplas direções, o gosto pelo cinema, a atração pelo existencialismo, a força do “aqui agora”, o tom poético, uma certa revolta disfarçada na elegância do discurso e a compreensão nítida do papel do intelectual na revolução.

 

Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br

 

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