OPINIÃO DE CÉLIO FURTADO: FOME NO BRASIL

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Célio Furtado – Engenheiro e professor da Univali celio.furtado@univali.br

Escrevo nesse início de tarde, ouvindo soft jazz/saxofone/trompete, na tranquilidade do quintal, pássaros soltos e latidos dos cachorros.

Há pouco, gravei um comentário para a TV 24 horas sobre a minha visão da fome no país. Tenho o privilégio de emitir diariamente minha opinião sobre os mais diversos temas, uma condição da qual sou muito grato, pois todos nós precisamos da liberdade de expressão, um marco indelével de uma sociedade democrática.

Nesse sentido, agradeço o carinho e consideração do brilhante jornalista Sandro Garcia. Escolhi o tema inspirado em uma noticia recente, um título de um editorial que diz mais ou menos o seguinte “Somos campeões de exportação de agronegócios e temos tanta fome no país”, uma boa provocação para todos nós que tentamos compreender nossa nação brasileira. Poderia iniciar o texto por um trecho de uma antiga canção que diz: “pelos campos há fome em grande plantação”, uma certeira ilustração da enorme desigualdade social reinante, um fenômeno sócio econômico que tende a crescer, ao invés de diminuir.

A fome é consideração uma das situações mais degradantes da condição humana, um sofrimento silencioso, que definha o corpo e humilha até o mais baixo nível a dignidade humana.

A paisagem da fome se alastra por todas as regiões, urbanas e rurais, metrópoles e pequenas cidades. Já faz parte da paisagem urbana, a mendicância, gente, revirando os lixos e lixões, em busca de algo para matar a fome. Inicialmente pode parecer um discurso demagógico, algo de “esquerda”, mas não o é, se dizem que o socialismo não deu certo, também, o capitalismo liberal não obteve o devido sucesso, pois, aumentam os bolsões de pobreza.

São muitos os ensaios e livros sobre o tema, que vem merecendo as mais diversas abordagens, entre elas, a resposta religiosa espiritualista, “praticar a caridade”, “dar pão a quem tem fome”.

Por outro lado, os espíritos mais pragmáticos respondem de outro modo, “não dê o peixe e sim, ensine a pescar”. Já no meu tempo de estudante de Engenharia, já pensávamos na ideia de um projeto nacional, uma compreensão mais nacionalista, pois, estávamos diante de um quadro contraditório, tantas terras férteis e tanta miséria, e, particularmente, eu me detinha a ler alguns clássicos sobre o assunto.

Lembro-me bem, na minha formatura, na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma bela cerimônia, no famoso Maracanãzinho, onde, estava escrito no convite, “Ao sofrido povo brasileiro”, turma de 1977.

Já passado muitos anos, persiste essa preocupação intelectual e moral com a fome no mundo e, de um modo especial, a fome no país.

Não adianta mergulharmos na modernidade, na inserção ao modo de produção dominante, exportarmos proteína para o mundo e, aqui, passarmos fome.

Evidentemente, devemos rever o nosso modelo de desenvolvimento econômico concentrador de renda, e reforçar nossos esforços para democratizar o acesso aos bens fundamentais que caracterizam um padrão civilizatório decente: alimento, saúde, educação, qualificação profissional.

Dessem modo estaremos distribuindo dignidade e auto estima ao nosso sofrido povo brasileiro, nada mais justo!

 

Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br


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