OPINIÃO DE CÉLIO FURTADO: CARNAVAL/PANDEMIA

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Célio Furtado – Engenheiro e professor da Univali celio.furtado@univali.br

Após a despedida no Cemitério da Fazenda, o sepultamento do meu irmão, vítima da Covid-19, permanece ainda forte a lembrança, os traços, o aprendizado do irmão mais velho de setenta e um anos.

Nascido em primeiro de agosto de um mil e novecentos e quarenta e nove, educado no Grupo Escolar Floriano Peixoto, no Colégio Salesiano, no Exército, em Joinville, na Universidade Federal de Santa Catarina e, aluno brilhante na escola da vida. Servidor público exemplar, lotado há muitos anos na Advocacia Geral da União, Florianópolis, dedicado, disciplinado e produtivo, trabalhou até o fim.

Refiro-me ao meu irmão Gilson Hélio Furtado, um homem simples, um livre pensador, permitam-me acrescentar, “um grande brasileiro”, um curriculum vitae, limpo, irretocável, um filósofo popular, viveu coerente com os seus pensamentos, foi autêntico até o fim. Que descanse em paz!

Voltemos ao nosso cotidiano, pensando a realidade circundante, ou melhor, esboçando algumas ideias sobre a conjuntura atual, pois a vida segue, a realidade é complexa e temos que exercer o dever do ofício de escrever para ajudar no debate sobre nosso potencial, pois todos acreditamos que o Brasil ainda é o país do futuro.

Criamos expectativas pessoais, isso faz parte de nossa natureza humana, extrapolar o presente, criar cenários alternativos, pois todos sabemos da fábula da cigarra e da formiga, uma didática alusão ao conflito entre o “aproveitar ao máximo a vida”, pois não sabemos o amanhã, ou então, poupar, guardar o dinheiro, não esbanjar, pois sabemos que “de grão em grão, a galinha enche o papo”.

Sabemos que a poupança e o investimento no Brasil são baixos, sendo insuficiente a taxa de formação de capital; grande parte dos gastos são despesas de custeio, tornando o investimento público e privado muito longe do necessário, por isso crescemos pouco. Daí o desemprego crescente, estimado em 15%, gerando uma periferia dramática, pobreza, subemprego, um grande contingente de “barrados no baile”, um quadro dramático, difícil de ser equacionado e resolvido, dentro dos moldes tradicionais da democracia liberal.

Não é fácil a passagem de uma economia desorganizada e com grande desperdício de recursos humanos e materiais, de anos acumulados, para uma economia de pleno emprego. Temos que levar em conta a histerese (retardo), dificuldade do” material voltar ao normal”, diferente da imagem da resiliência, típica do bambu, por exemplo. A macroeconomia não funciona como uma mola perfeita, basta liberar os entraves e tudo volta ao normal, na verdade, a realidade é outra, existem perdas e danos irreparáveis, sem falar na baixa autoestima dos que estão marginalizados há tempo, os deserdados, os desempregados crônicos.

Temos uma paisagem humana preocupante em nosso país, um desperdício irreversível, um desafio enorme pela frente, no esforço de recuperação dos desiludidos e um empenho patriótico, com muita ciência e tecnologia, para o preparo das novas gerações que estão vindo; uma lúcida e benfazeja semeadura para o futuro.

No país do Carnaval, não há Carnaval, nem marchinha, nem desfile, muita tristeza, paranoia, máscara, álcool,  alegria distante,  e nada vai “acabar na quarta feira”.

Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br


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