Após conquistar a Globe40, Barco Brasil encara desafios na Route du Rhum e enfrenta avarias no Atlântico

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Créditos: Divulgação

A experiência adquirida em uma regata de volta ao mundo agora é colocada à prova em uma das mais tradicionais competições da vela oceânica. Depois de conquistar o título da categoria Sharp na Globe40 2025/2026, o Barco Brasil participa da Route du Rhum – Destination Guadeloupe 2026, travessia transatlântica em solitário que tem exigido atenção redobrada do velejador belga Gaëtan Thomas.

Nesta sexta-feira (6), o Class40 brasileiro, de número 151, aparecia na 31ª posição entre 49 embarcações da categoria. A velocidade registrada era de 12,8 nós, enquanto a distância até a chegada, em Pointe-à-Pitre, no Caribe, chegava a 2.303,5 milhas náuticas.

A navegação acontece em uma área de condições meteorológicas instáveis, nas proximidades do arquipélago dos Açores. Para evitar a parte mais intensa de uma depressão no Atlântico Norte, Thomas escolheu avançar pelo sul da região, seguindo uma estratégia que também é adotada por parte da flotilha.

A Route du Rhum é disputada de quatro em quatro anos e liga Saint-Malo, na França, a Pointe-à-Pitre, em Guadalupe. Desde sua criação, em 1978, a prova se consolidou como uma das principais travessias oceânicas do calendário internacional. Em 2026, reúne veleiros de seis categorias em aproximadamente 3.542 milhas náuticas, ou 6.560 quilômetros.

Problemas técnicos alteram estratégia de navegação

Além de enfrentar as oscilações climáticas, Gaëtan Thomas já precisou lidar com danos em dois spinnakers, velas especialmente utilizadas em condições de vento favorável. Como a prova é realizada sem escalas e sem suporte externo, a conservação dos equipamentos se tornou uma prioridade para o comandante.

Em comunicação feita diretamente da embarcação, Thomas detalhou os motivos da escolha da rota e as dificuldades encontradas durante a passagem pelo Atlântico Norte.

“Seguimos enfrentando condições difíceis no Atlântico. Como vocês podem acompanhar pela carta náutica, optei por uma rota mais ao sul para tentar contornar essa área de baixa pressão da maneira mais segura e rápida possível. Já tive dois spinnakers danificados e, por isso, preciso administrar os riscos e preservar o equipamento. Continuo com espírito competitivo, mas também em modo de aventura. Conheço bem essa região, por onde já passei várias vezes, e sei como as condições podem mudar rapidamente”, relatou Gaëtan Thomas, diretamente do Barco Brasil.

A configuração do mar é outro fator que interfere no desempenho dos veleiros. A passagem de sistemas de baixa pressão modifica a direção e a força dos ventos, mas as ondas não acompanham necessariamente essas mudanças no mesmo ritmo. Com isso, ondulações provenientes de diferentes direções podem se encontrar e tornar a navegação mais difícil.

Thomas explicou que sua intenção é passar pela região menos intensa da depressão, contornando o sistema pelo norte.

“As ondas podem levar dois ou três dias para se reorganizar. Podemos enfrentar ondulações vindas de diferentes direções ao mesmo tempo, tornando o mar bastante confuso. Minha estratégia é tentar contornar a depressão pelo norte, passando pela região de menor intensidade. O objetivo é atravessar essa região e chegar ao outro lado”, explicou o comandante.

Acidente com velejadora francesa aumenta preocupação

As condições enfrentadas pelos participantes também foram evidenciadas pelo incidente envolvendo Sasha Lanièce. Comandante do Class40 ALDERAN, a francesa perdeu o mastro nesta sexta-feira (6), enquanto navegava ao norte dos Açores.

A velejadora estava na 15ª colocação da Classe40 quando o acidente aconteceu. Naquele momento, enfrentava ventos de 35 a 40 nós e ondas próximas de cinco metros. A organização da Route du Rhum foi informada às 7h05, no horário UTC.

De acordo com as informações divulgadas após o ocorrido, Sasha Lanièce não sofreu ferimentos e seguia em direção ao arquipélago dos Açores.

O episódio levou Gaëtan Thomas a recordar um acidente semelhante que enfrentou há 15 anos, quando também participava de uma travessia em solitário.

“Também quero deixar meus pensamentos para Sasha Lanièce, que acabou de perder o mastro. Ainda não tenho mais informações sobre o que aconteceu. Passei por uma situação semelhante há 15 anos, quando também navegava sozinho, e sei como é difícil. Espero que ela esteja bem”, afirmou Gaëtan Thomas.

Barco Brasil mantém planejamento de travessia

Apesar das avarias registradas desde a partida, no domingo (1º), o comandante mantém a intenção de completar o percurso até o Caribe. A condução do barco exige equilíbrio entre velocidade, leitura das condições meteorológicas e cuidados com os equipamentos disponíveis.

A presença do sol trouxe algum alívio durante a sexta-feira, mas as grandes formações de nuvens ainda provocam alterações rápidas na intensidade e na direção do vento.

“O moral a bordo continua bom. Finalmente tivemos um pouco de sol, embora as grandes nuvens provoquem mudanças rápidas na força e na direção do vento. Agora é preciso manter a concentração, cuidar do barco e continuar avançando. O objetivo permanece o mesmo: chegar ao outro lado”, completou.

Na atualização do rastreamento realizada durante a tarde desta sexta-feira (6), o veleiro brasileiro estava a 328,7 milhas náuticas do líder da Classe40. A chegada está prevista para Pointe-à-Pitre, em Guadalupe, com os participantes ajustando o percurso conforme a evolução dos sistemas meteorológicos no oceano.

Cada Minuto Conta – Navegando contra o AVC

A participação em eventos internacionais também integra a estratégia do Barco Brasil de ampliar a conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral (AVC). A campanha Cada Minuto Conta utiliza a dinâmica da vela oceânica para transmitir uma mensagem sobre a importância de agir rapidamente diante dos sintomas da doença.

Idealizado pelo médico José Guilherme Caldas, especialista em neurorradiologia intervencionista e profissional dedicado ao tratamento do AVC, o projeto destaca a relação entre decisões tomadas em situações de pressão durante uma regata e a rapidez necessária para iniciar o atendimento médico.

O reconhecimento dos sinais da doença e a busca imediata por assistência especializada podem reduzir suas consequências. O AVC está entre as principais causas de morte e incapacidade no Brasil.

A trajetória da equipe na Globe40 2025/2026 também foi documentada em um livro e em um filme, ambos intitulados Cada Minuto Conta. As obras registram a experiência da volta ao mundo e relacionam os desafios enfrentados no mar às decisões envolvidas no atendimento de pacientes com AVC.

Sobre o Barco Brasil

O projeto Barco Brasil foi criado por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina e reúne atividades de competição em vela oceânica, desenvolvimento de velejadores e campanhas de conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Caldas ocupa os cargos de professor livre-docente do Departamento de Radiologia da Universidade de São Paulo (USP), chefe do Serviço de Neurorradiologia Intervencionista do Hospital das Clínicas da USP e coordenador médico do Hospital Sírio-Libanês.

Bolina, por sua vez, trabalha como professor de wingfoil e vela oceânica, além de atuar com day charter.

A estrutura náutica do projeto é composta por quatro embarcações: Barco Brasil Class40 151, Mussulo 50, Tutatis e HPE25. O planejamento inclui capacitar tripulantes brasileiros para provas oceânicas e preparar a equipe para a Globe40 2028/2029.