De pais para filhos, histórias de gerações se encontram na 76ª Regata Santos-Rio

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Créditos: Acervo pessoal

Aprender a velejar com o pai, dividir o convés com os filhos e reencontrar antigos companheiros são experiências que ajudam a explicar a permanência da Regata Santos-Rio no calendário da vela oceânica brasileira. Na 76ª edição, que começa nesta quinta-feira (22), André Mirsky e Pierre Joullié representam essa ligação entre tradição familiar, experiência e renovação do esporte.

A competição abre o Campeonato Brasileiro de Oceano 2026, promovido pela Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO) em parceria com o Iate Clube de Santos e o Iate Clube do Rio de Janeiro. A programação do campeonato continua com o Circuito Rio, entre 30 de outubro e 2 de novembro.

Ao longo das décadas, a travessia consolidou-se como uma prova que exige preparo e capacidade de adaptação. As condições do mar e do vento, o convívio durante as noites a bordo e as decisões tomadas em equipe fazem parte das lembranças que acompanham os participantes muito além da linha de chegada.

A influência de Sérgio Mirsky na formação de André

Com 39 participações na Santos-Rio, Sérgio Mirsky construiu uma trajetória que também marcou a formação do filho André. Ainda pequeno, ele acompanhava o pai na preparação das embarcações e nas viagens necessárias para chegar a Santos, de onde começava o percurso de retorno.

André acredita que tinha sete ou oito anos quando participou pela primeira vez da regata. A memória da estreia inclui chuva, ondas e vento forte de leste. Naquele momento, enquanto Sérgio conduzia os procedimentos para reduzir as velas, o menino acompanhava as atividades da tripulação e absorvia os ensinamentos.

“A única coisa que eu fazia era participar, não tinha nenhuma função a bordo, eu estava lá para aprender. E eu acho que eu aprendi muito”, conta.

O exemplo paterno não se limitava à navegação. Sérgio promovia treinamentos, ajudava iniciantes e incentivava os integrantes da equipe a participar dos preparativos ao longo do ano. André recorda que o pai buscava criar um sentimento de pertencimento entre os velejadores.

“Ele fazia questão de manter o sentimento de ser o comandante de uma equipe, não de um barco, de um grupo de pessoas”, afirma.

Essa preocupação com a continuidade do esporte acompanha André até hoje. Nesta quinta-feira (22), ele participará da prova no Bravo, um Soto 40, a convite do proprietário Jorge. A proposta é compartilhar sua experiência e colaborar com a adaptação da tripulação à embarcação.

“Eu acho que a vela precisa de renovação. No que eu puder contribuir para ele prosperar na vela, eu vou fazer isso.”

Uma travessia que marcou três gerações

A estreia de Pierre Joullié aconteceu em 1978, quando tinha 14 anos. Ele navegou no High Tension, sob o comando do pai, Alain Pierre Joullié, e na companhia do irmão Alainzinho, que tinha 15 anos. Desde então, calcula ter participado de cerca de 20 edições da Santos-Rio.

A primeira travessia exigiu atenção desde a largada. Com o vento forte de sudoeste, os cabos da vela de balão ficaram sob pressão e algumas peças começaram a se soltar do convés. Pierre precisou ir à cabine com uma chave de boca para apertar as porcas. Mais tarde, a falta de vento fez a viagem demorar ainda mais.

O momento mais significativo de sua história na competição, porém, veio em 2020. Na 70ª edição, Pierre assumiu o comando do Saravah e dividiu a travessia com o pai, de 85 anos, e o filho Philippe, de 14. A embarcação conquistou o segundo lugar na classe IRC, após enfrentar condições exigentes durante o percurso.

“Tive o privilégio de correr no meu barco Saravah na companhia do meu pai Alain e do meu filho Philippe”, recorda. “Lestada fortíssima, muita correnteza contra e um frio que nunca senti na Santos-Rio.”

A experiência acumulada por Pierre inclui ainda travessias do Atlântico e o terceiro lugar geral em tempo corrigido na Cape to Rio de 2020, à frente do Saravah. Seu envolvimento com a modalidade também passou pela ABVO, onde foi diretor da regra IRC e representou a entidade em congressos internacionais nos anos de 2012 e 2013.

Alain, por sua vez, participou do desenvolvimento da vela à frente do Iate Clube Armação de Búzios. Em reconhecimento à sua contribuição para o Mundial da Juventude de 2009, realizado na cidade, recebeu uma homenagem da então Federação Internacional de Vela.

A continuidade da vela oceânica brasileira

A tradição da Santos-Rio também contribuiu para a estruturação institucional da modalidade. A necessidade de organizar a competição motivou a criação da ABVO, formalizada em 1955. Hoje, a entidade é responsável pela administração de regras de rating, representa a ORC no Brasil e presta apoio técnico aos clubes que promovem regatas.

A cada edição, a participação de velejadores experientes contribui para a transmissão de conhecimentos e para a chegada de novos integrantes às tripulações. As trajetórias de André e Pierre mostram como a prova mantém sua relevância ao conectar histórias familiares e diferentes gerações.

O encerramento de uma edição, para André, não significa o fim da relação com a regata. Pelo contrário, é justamente a satisfação de concluir o percurso que alimenta a vontade de voltar ao mar.

“Você tem aquela satisfação de ter terminado”, diz André. “No ano que vem, quando alguém te chamar, você vai de novo. É assim que funciona. Pelo menos comigo.”