Da Redação | Agência Regata News
A Clipper Race é uma competição para pessoas comuns dispostas a tomar uma decisão extraordinária.
Os aventureiros que escolhem enfrentar esse desafio vêm de diferentes origens, profissões e idades. O que os une é uma característica: a decisão de não permitir que a rotina determine os limites do que são capazes de realizar.
E o desafio é gigantesco. Antes mesmo de considerar o esforço físico de seis travessias oceânicas e aproximadamente 40.103 milhas náuticas de navegação, existe outro desafio, talvez ainda maior: a força mental necessária para arrumar as malas, fechar a porta de casa e se despedir temporariamente de familiares e amigos para partir em busca de uma experiência única.
Não é uma decisão simples.
Mas os participantes da Clipper Race não deixam que idade, carreira ou a monotonia do cotidiano impeçam a realização de um sonho.
É justamente esse espírito de aventura que acompanha a história da competição desde sua criação, em 1996, pelo navegador britânico Sir Robin Knox-Johnston, que se tornou a primeira pessoa a velejar sozinha e sem escalas ao redor do mundo.
Para Sir Robin, o espírito de aventura não tem idade:
“O espírito da aventura não reconhece a idade humana. Aqueles que a têm continuarão explorando.”
Segundo ele, a motivação pode ser diferente para cada pessoa: curiosidade, desejo de viver uma nova experiência ou simplesmente a vontade de ultrapassar os próprios limites.
“Essas pessoas estão vivendo a vida ao máximo e ultrapassando os limites do esforço humano.”
As palavras de Sir Robin encontram eco nas histórias de centenas de velejadores que já participaram da Clipper Race.
O oceano como transformação
David Sautret, comandante do Team Yacht Club Punta del Este na edição 2025-26, resumiu o impacto da experiência depois de sua equipe retornar à terra firme.
Para ele, a Clipper Race pode mudar completamente a maneira como uma pessoa enxerga a si mesma.
“A Clipper Race tem o poder de mudar a forma como você se vê e avalia do que é capaz.”
E não é necessário ser um velejador profissional.
“Você não precisa ser um marinheiro profissional. Você não precisa ser jovem ou destemido. Você precisa ter disposição para se inscrever, completar o treinamento e chegar pronto para aprender e contribuir. O oceano fará o resto.”
Segundo Sautret, a experiência exige o melhor de cada participante, revela suas limitações e, para aqueles que perseveram, entrega uma nova versão de si mesmos — além de amizades construídas em condições extremas de navegação.
Idade não é limite
A diversidade é uma das marcas da Clipper Race.
Entre os tripulantes estão profissionais de diferentes áreas: tatuadores, padeiros, veterinários, contadores, treinadores e pessoas que, antes da competição, levavam uma vida completamente diferente daquela encontrada a bordo de um veleiro oceânico.
Sara Brewer, aos 70 anos, circunavegadora a bordo da equipe Tongyeong, encontrou justamente nessa diversidade uma das grandes riquezas da experiência.
“Tínhamos uma tripulação tão diversa, de neurologista a astronauta e tatuadora. Tudo em um barco.”
Para ela, conviver com pessoas tão diferentes amplia a visão de mundo.
“Você aprende tanto – é uma joia escondida da Clipper Race.”
Sara também resume sua filosofia de vida em uma frase direta:
“Em vez de olhar para quantos anos me restam de vida, continuo fazendo coisas até não conseguir mais!”
E deixa outro conselho:
“Se você pensar demais, vai encontrar motivos para não fazer.”
Do escritório para o oceano
O francês Martin Marant, de 29 anos, contador parisiense que disputou as etapas 5 e 6 a bordo da equipe Tongyeong, viveu uma transformação radical de rotina.
Antes da Clipper Race, sua vida profissional era marcada por escritório, computador e reuniões.
“Em um dia normal, eu estaria sentado atrás de um laptop em um grande prédio de torre, vestindo terno e gravata.”
No oceano, entretanto, vieram o esforço físico, a privação de conforto e momentos de dúvida.
Mas também nasceram experiências que, segundo ele, ficarão para toda a vida.
“Você vai aprender muito sobre si mesmo, vai aproveitar a felicidade de ver os nasceres do sol, pores do sol e a vida selvagem mais incríveis.”
E há ainda outro elemento fundamental: as conexões humanas criadas a bordo.
“As conexões que você faz no iate são muito especiais.”
Fazer coisas difíceis
O canadense Val Linton, 51 anos, treinador de patinação de velocidade e circunavegador da Seattle Sports Team, decidiu participar da Clipper Race justamente para se colocar diante de desafios.
“O grande propósito era sair e fazer coisas difíceis.”
À medida que envelhecia, queria continuar desafiando o corpo e a mente.
O oceano, porém, lhe ensinou algo diferente do que imaginava.
Antes da partida, pensava que teria muito tempo para refletir sobre as grandes questões da vida. Na realidade, encontrou algo muito mais simples: conversas, trabalho em equipe e até tentativas de lembrar letras de músicas.
“Isso me ensinou como a vida pode ser simples, e espero levar um pouco disso comigo.”
Sangue, suor, lágrimas e sal
Heidi Brown, 47 anos, contadora norte-americana e circunavegadora a bordo da Team Scotland, descreve a chegada ao final da volta ao mundo como uma conquista coletiva.
“O que conquistamos ao redor do mundo é uma conquista e todos devemos nos orgulhar uns dos outros.”
A bordo, os participantes dividem experiências que dificilmente podem ser reproduzidas em terra.
“Sangue, suor e lágrimas compartilhados, misturados com sal e histórias pelo caminho.”
São momentos de trabalho conjunto, tempestades, frio, medo e superação.
Mas, depois de tudo isso, surge uma nova pergunta:
O que vem depois?
Um aniversário diferente
Bob Brown, 60 anos, circunavegador da Team London Business School, decidiu trocar sua rotina profissional e partir para o mar em busca de algo especial para marcar um grande aniversário.
A motivação era simples:
“Eu não participei da Clipper Race por outro motivo além de me tornar um circunavegador. Eu queria algo especial, algo que eu levasse para o túmulo comigo.”
Trezentos dias no mar
O espanhol Augusto “Gus” Barcia, 58 anos, circunavegador da Galícia que completou um ano a bordo da Team UNICEF, conta que a dúvida também fez parte da jornada.
Durante os cerca de 300 dias de aventura, questionou sua decisão praticamente todos os dias.
“Você não pode esconder como reage e como reflete sobre as coisas que encontra.”
Mas, ao final, veio o orgulho pela conquista.
Gus fez aquilo que, antes da partida, jamais imaginaria ser capaz de fazer.
O começo mais difícil
A cineasta holandesa Maartje Van Huijstee, 32 anos, que circunavegou a bordo da Seattle Sports Team, também enfrentou momentos em que pensou em desistir.
“É surreal ter chegado tão longe, especialmente quando o começo foi tão difícil.”
Ela chegou a desejar que alguém lhe dissesse que era possível parar.
Mas continuou.
“Eu não sabia se conseguiria fazer isso por tanto tempo. Mas consegui aguentar e está incrível.”
O chamado do oceano
As histórias dos participantes da Clipper Race mostram que a vela oceânica não é exclusivamente um esporte para atletas profissionais.
É também uma experiência humana.
Pessoas de diferentes idades, profissões e países deixam temporariamente suas vidas em terra para enfrentar tempestades, ondas, frio, calor, privação de sono e milhares de milhas náuticas.
A bordo, aprendem a velejar, trabalhar em equipe, tomar decisões e conviver em condições extremas.
São pessoas comuns que decidiram fazer algo extraordinário.
E talvez essa seja uma das maiores mensagens da Clipper Race:
o oceano não pergunta quem você era antes de embarcar. Ele desafia você a descobrir quem pode se tornar depois de enfrentar o mar.
As inscrições para a próxima aventura da Clipper Race, com largada prevista para 2027, já estão abertas.
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