O futuro: da “economia da praia” à “economia do mar”

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  • Da Redação | Agência Regata News
  • O futuro: da “economia da praia” à “economia do mar”
  • A questão central é compreender que a náutica não deve ser pensada apenas como mercado de barcos, mas como plataforma de desenvolvimento territorial.
  • O paradoxo brasileiro da náutica

Existe um contraste evidente no Brasil contemporâneo. Internamente, ainda tratamos a náutica como um universo restrito — associado a marinas, embarcações de alto padrão e a um público reduzido. Externamente, porém, o país passou a ocupar um lugar estratégico no mapa global das grandes competições oceânicas. Essa diferença de percepção não é apenas cultural; ela revela um descompasso entre o potencial econômico, esportivo e geopolítico da náutica brasileira e a forma como ainda a enxergamos.

Quando os organizadores de eventos como The Ocean Race, SailGP, Globe40, Clipper Round the World Yacht Race, TP52 World Championship e outras competições de vela oceânica escolhem o Brasil como sede, parada ou mercado prioritário, não o fazem por romantismo tropical. Fazem porque identificam infraestrutura, posição geográfica, mercado consumidor, capacidade de mobilização e projeção internacional.


A visão limitada: náutica como luxo

Historicamente, a náutica brasileira foi enquadrada em três estereótipos:

  • esporte elitizado;
  • atividade de lazer de alto custo;
  • segmento pequeno demais para influenciar a economia nacional.

Essa leitura ignora que a cadeia náutica envolve:

  • construção naval de lazer;
  • marinas e infraestrutura portuária;
  • turismo náutico;
  • hotelaria e gastronomia;
  • eventos esportivos;
  • tecnologia embarcada;
  • logística internacional;
  • formação profissional especializada;
  • mídia, entretenimento e produção audiovisual.

Em países como França, Espanha, Itália, Reino Unido, Nova Zelândia e Estados Unidos, a náutica é tratada como indústria estratégica, capaz de gerar empregos qualificados, exportações e desenvolvimento regional.

O Brasil, apesar de possuir mais de 8.500 km de litoral, centenas de baías navegáveis, grandes reservatórios interiores e tradição olímpica na vela, ainda não incorporou plenamente essa visão sistêmica.


O que o mundo enxergou no Brasil

1. Posição geográfica única

No circuito das regatas de volta ao mundo, o Atlântico Sul é uma peça fundamental. Entre Europa, África Austral e Oceania, poucos portos oferecem simultaneamente:

  • abrigo seguro,
  • estrutura logística,
  • capacidade de receber equipes internacionais,
  • conectividade aérea,
  • serviços especializados.

Itajaí tornou-se um exemplo emblemático. A cidade deixou de ser apenas um porto pesqueiro e comercial para transformar-se em hub náutico internacional.


2. Capacidade de mobilização popular

Um aspecto frequentemente subestimado é o comportamento do público brasileiro. Enquanto em muitos países a vela permanece concentrada em clubes tradicionais, no Brasil grandes eventos náuticos conseguem atrair centenas de milhares de visitantes quando integrados ao espaço urbano.

A Vila da Regata da The Ocean Race em Itajaí demonstrou que a vela pode funcionar como evento de massa, combinando esporte, entretenimento, educação ambiental, gastronomia e turismo.

Para os organizadores internacionais, isso tem enorme valor comercial:

  • mais circulação de público,
  • maior exposição para patrocinadores,
  • maior retorno de mídia,
  • engajamento social ampliado.

3. Potencial econômico do litoral brasileiro

O litoral brasileiro concentra:

  • portos,
  • polos industriais,
  • destinos turísticos,
  • aeroportos internacionais,
  • redes hoteleiras,
  • centros universitários,
  • empresas de tecnologia e energia.

A economia do mar — ou Blue Economy — é hoje uma das agendas mais importantes do desenvolvimento global. O Brasil possui condições naturais para ser protagonista, mas sua participação ainda é muito inferior ao potencial disponível.


A mudança de status: de cenário para plataforma

Durante décadas, o Brasil era visto pelas competições internacionais como cenário exótico: belas praias, clima favorável e imagens espetaculares para televisão.

Hoje a lógica mudou.

Antes:

“Vamos passar pelo Brasil porque é bonito.”

Agora:

“Precisamos do Brasil porque ele amplia o alcance global do evento.”

Essa mudança é profunda.

Os grandes circuitos esportivos buscam:

  • novos mercados consumidores;
  • audiência latino-americana;
  • patrocinadores regionais;
  • expansão de marcas globais;
  • diversificação geográfica do calendário.

O Brasil oferece exatamente isso: um mercado de mais de 200 milhões de pessoas, forte presença digital e crescente interesse por experiências ligadas ao mar.


Itajaí como estudo de caso estratégico

A trajetória de Itajaí ajuda a compreender essa transformação.

Elementos decisivos:

  • porto de classe internacional;
  • marina estruturada;
  • tradição náutica crescente;
  • apoio institucional contínuo;
  • capacidade de receber equipes IMOCA;
  • integração entre poder público e iniciativa privada;
  • legado urbano permanente.

O impacto econômico estimado das edições anteriores da The Ocean Race mostrou que um evento náutico pode movimentar centenas de milhões de reais, afetando setores muito além da vela.

Mais importante que o impacto imediato é o efeito reputacional:

  • atração de investimentos,
  • valorização imobiliária qualificada,
  • fortalecimento do turismo internacional,
  • consolidação da cidade como destino de eventos globais,
  • estímulo à formação de mão de obra especializada.

A dimensão esportiva: o Brasil já é potência

Outro equívoco recorrente é imaginar que o país ainda busca reconhecimento esportivo na vela. Na realidade, o Brasil possui uma das histórias mais respeitadas do mundo:

  • Torben Grael,
  • Robert Scheidt,
  • Lars Grael,
  • Kahena Kunze,
  • Martine Grael,
  • dezenas de campeões mundiais em diferentes classes.

O reconhecimento internacional já existe há décadas. O que faltava era transformar esse capital esportivo em estratégia econômica e institucional.

As grandes competições perceberam que o Brasil não oferece apenas paisagem; oferece cultura náutica competitiva.


O papel da mídia especializada

Há também uma transformação silenciosa na comunicação.

Durante muito tempo, a cobertura náutica brasileira dependia quase exclusivamente de veículos ligados a clubes ou ao mercado de embarcações. O surgimento de plataformas digitais especializadas, como portais, canais de vídeo e redes sociais dedicadas à vela oceânica, ampliou significativamente o alcance do esporte.

Isso interessa diretamente aos organizadores internacionais, porque eventos globais dependem cada vez mais de:

  • produção contínua de conteúdo,
  • narrativas locais,
  • cobertura em tempo real,
  • distribuição multiplataforma,
  • conexão emocional com o público regional.

A mídia especializada deixa de ser apenas observadora e passa a integrar o ecossistema estratégico do evento.


O desafio estrutural brasileiro

Se o mundo já percebeu o valor estratégico da náutica brasileira, por que ainda resistimos a essa percepção?

Alguns fatores explicam:

Fragmentação institucional

Turismo, esporte, indústria naval, meio ambiente e desenvolvimento econômico raramente atuam de forma coordenada.

Falta de política nacional para a economia do mar

O país possui iniciativas relevantes, mas ainda carece de uma política robusta e integrada para o setor náutico de lazer e esportivo.

Baixa cultura de acesso ao mar

Milhões de brasileiros vivem próximos ao litoral sem qualquer experiência regular de navegação, vela ou esportes náuticos.

Infraestrutura desigual

Existem polos avançados — como Itajaí, Ilhabela, Angra dos Reis, Florianópolis e Rio de Janeiro —, mas o litoral brasileiro ainda apresenta enormes vazios de infraestrutura náutica.


O futuro: da “economia da praia” à “economia do mar”

A questão central é compreender que a náutica não deve ser pensada apenas como mercado de barcos, mas como plataforma de desenvolvimento territorial.

Os países líderes do setor trabalham com uma lógica integrada:

Dimensão Resultado
Eventos esportivos Turismo internacional
Marinas Revitalização urbana
Vela de base Formação educacional
Construção naval Inovação industrial
Economia do mar Sustentabilidade costeira
Mídia especializada Projeção global da marca-país

O Brasil possui condições naturais para desenvolver todas essas dimensões simultaneamente.


Conclusão: o Brasil precisa acreditar no que o mundo já percebeu

A frase proposta sintetiza uma mudança histórica:

“O Brasil deixou de ser apenas um país com belas paisagens. Tornou-se um destino estratégico.”

O ponto crucial é que o reconhecimento externo antecedeu a consciência interna.

As grandes organizações internacionais da vela já entenderam que o Brasil reúne:

  • localização privilegiada,
  • tradição esportiva,
  • capacidade de mobilização popular,
  • infraestrutura em expansão,
  • mercado relevante,
  • potencial de crescimento da economia do mar.

O verdadeiro desafio agora não é convencer o mundo da importância náutica do Brasil. O mundo já começou a agir de acordo com essa convicção.

O desafio é convencer o próprio Brasil de que a náutica não é um nicho periférico, mas uma fronteira estratégica de desenvolvimento econômico, esportivo, turístico e internacional.

E talvez Itajaí, Ilhabela e os grandes eventos que chegam ao litoral brasileiro estejam sinalizando justamente isso: o mar deixou de ser apenas paisagem; tornou-se ativo estratégico do século XXI.