Um velejador e jornalista: Tarcísio Mattos na Regata Volta a Ilha de Santa Catarina

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Maneco II, do comandante Dalmo Vieira, entra na tempestade. O flagrante foi feito pelo tripulante Rogério, do veleiro Mako, minuto antes de Dalmo reduzir as velas.

 

* Tarcísio Mattos –

velejador, jorrnaista e empresário.

 

A Volta à Ilha deste final de semana foi radical. O Dalmo Vieira nos convidou para fazer parte da tripulação do Maneco II, mas a Pousada não nos permite mais estes prazeres. Não é reclamação, nossa vida aqui é maravilhosa, mas, sim, sentimos falta de sal no sangue.

A regata foi monitorada e deu para acompanhar o andamento dos barcos, mas quem estava lá participou de uma corrida inesquecível. Daquelas de nunca esquecer mesmo. Daquelas que eu gostaria de correr.

Sempre que passamos por um perrengue gigante no mar, a pergunta que mais fazemos para nós mesmos é a clássica: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Só que assim que possível, estamos lá de novo. Meu primeiro barco, por exemplo, foi comprado numa noite de domingo, em dezembro de 2002.

Chagamos de uma Volta a Ilha, também feroz, no início da manhã de domingo. Durante a parte da prova em que corremos com o vento, sem velas e a 5 nós de velocidade, sem ver nada na frente nem nos lados, sabendo que o costão dos Ingleses estava próximo, ouvindo gritos vindos das embarcações aos lados e o panejar de velas que rasgavam, eu decidi: nunca mais volto aqui! A noite comprei o Calufa.

Aquela regata foi no Capitão Gaudino, o barco do Dalmo, o mesmo comandante que nos convidou para corrermos no sábado. E eu sempre pensei que não haveria outra como aquela, mas a deste final de semana, mesmo sem estar lá, sei que a superou.

Às 13h21min de sábado eu enviei uma mensagem ao grupo de velejadores que faço parte dizendo “Se a porranca de Oeste que entrou aqui alcançar o litoral, a Volta à Ilha será mais divertida”.  A tempestade levou um bom tempo para se formar sobre Pedras Rollantes, deu para nos prepararmos, para os hóspedes se recolherem com calma e ela acabou sendo fraca por aqui. Vento forte, mas o grosso da coisa passou mais ao Sul.

O centro da tempestade era uma nuvem carregadíssima, mas não muito grande. Em menos de uma hora ela alcançou o mar entre o Sul de Palhoça e o Norte de Garopaba.

O encontro brusco da baixa pressão provocada pela nuvem pesada, formada em terra, com o calor da água do mar, criou a bomba localizada que se abateu sobre os competidores. Há relatos de leituras de ventos perto de até 48 nós, quase 90km/h. As fotos e vídeos que chegam são assustadoramente lindos.

Foi tudo muito rápido. Às 14:30, apenas uma hora depois de eu ter enviado a mensagem, a nuvem daqui correu 100 km, cresceu no mar e encontrou o Dalmo no comando do Maneco II entre as Ilhas Três Irmãs e a ponta Sul da Lagoinha do Leste. À sua esquerda corria o Mako, do comandante Alex Fazzini, de onde o tripulante Rogério fez esta foto do minúsculo Maneco sob a nuvem gigante.

O Mako desistiu, mas o Dalmo não. Baixou a vela grande, reduziu a genoa e continuou, na maciota, até a coisa diminuir. Passou rápido, devolveu os panos para a mastreação e cruzaram a linha ao amanhecer. É que “depois da tempestade vem a bonança”, lembra? E bonança, neste caso, não á nada bom para quem veleja. Não tem vento, o barco se arrasta.

Como a coisa vinha de Sul, e rápido, os que estavam à frente foram alcançados logo em seguida. A ponta era disputada, basicamente, por cinco barcos, já lá pelo Moçambique. Os quatro 30 pés da classe C30, iguais em tudo, muito rápidos e construídos para regatas, e o 53 pés Terroso, também regateiro, mas não tanto.

Todos eram tocados por velejadores experientes. Não baixam velas. O grandão arrebentou a escota (cabo) do balão e a vela se enrolou no estaiamento. Prudente, o comandante Guto Matos não permitiu que os tripulantes subissem no mastro para desprender a vela e continuarem em regata. Desistiu. O C30 Zeus, comandando pelo Inácio Vandresen e tocado pelo Felipe Linhares, perdeu dois balões, mas terminou em terceiro. Não sei nada sobre a regata dos C30 Katana e Iron Lady, mas terminaram em segundo e em quarto, respectivamente.

O vencedor, ah, o vencedor, dificilmente seria outro senão o comandante André Fonseca no leme do Corta Vento, barco emprestado pelo Guto, o do Terroso, que o cedeu para o André correr com amigos.André Fonseca é o Bochecha, velejador que além de já ter defendido o Brasil em duas olimpíadas – mas isto outros que estavam na raia também fizeram -, tem três regatas Volvo Ocean Race no currículo. O mar que ele enfrentou aqui, por alguns minutos, não á nada comparado ao que ele já passou, principalmente, no oceano Austral, em suas voltas ao mundo.

 

 

Se para o Dalmo, que reduziu os panos e deixou a tempestade passar, tudo, felizmente, foi rápido, para os da ponta o ventão durou um pouco mais, pois eles embarcaram de carona e foram junto, levados pelo vento da nuvem. Os filmes que chegaram são impressionantes. Eles dão gargalhadas e gritam de prazer enquanto as ondas lavam o convés.

Dos 24 barcos que largaram para contornarem a ilha, metade não terminou. Dos 11 barcos que largaram na regata paralela, destinada a veleiros pequenos e que navegam contornam as ilhas do Largo (Ribeirão da Ilha) e Ratones Pequena, apenas um completou o percurso.

Volto a dizer: a Volta à Ilha deveria encabeçar a lista de desejos de “fazer antes de morrer” de todos os que gostam de esportes de mar e vento.