Isabella Nicolas-Opinião:Brasil 1: Senhores do Vento

0
255

fotos  pagina 6
Credito:

*Isabella Nicolas
Jornalista, escritora.
Produtora do Filme Senhores do Vento

post/13/03/05
Em 2004, ciente de que eu dirigia vídeos institucionais, o amigo Enio Ribeiro convidou-me a conhecer um projeto para o qual sua empresa estava captando recursos. O Brasil, pela primeira vez, ia fazer parte de uma regata importante e o principal patrocinador do barco queria fazer um institucional do evento. Por ocasião da apresentação do projeto para a mídia brasileira, minha surpresa foi total quando vi que a regata em questão era a Volvo Ocean Race, um dos maiores desafios náuticos do planeta, uma competição de volta ao mundo, adequadamente apelidada de “Everest da vela”, da qual apenas poucos países, com grande tradição de vela, haviam participado até então. Não pude deixar de pensar que a empreitada merecia mais que um simples institucional. Um barco novo e um desafio inédito eram ingredientes que mereciam um filme. Mas o fato dessa aventura ser vivida por uma tripulação inexperiente, num barco cujo orçamento era menos da metade dos demais participantes e de essa aventura ser documentada por alguém como eu, que nada sabia sobre vela oceânica, pressupunha dois fiascos: o do barco e o do filme. Mas o que se viu, em vez disso, foram dois sucessos. O Brasil 1, comandado por Torben Grael, surpreendeu com um emocionante terceiro lugar e o “Senhores do Vento”, filme que a odisseia gerou, foi exibido em festivais do Brasil e do mundo, ganhou prêmios, teve várias exibições em TV e vendeu mais de 5 mil cópias. Para realizá-lo, passei a seguir o Brasil 1 e sua tripulação, desde o batismo do barco na Marina da Glória, até o pódio em Gotemburgo, um ano e meio depois. Essa minha longa convivência com a equipe de terra e a tripulação fez com que surgisse uma enorme admiração pelo universo da vela. Poder testemunhar de perto a intensidade da aventura foi inesquecível. No barco, os tripulantes tiveram a inteligência de usar o humor para aliviar a tensão e as dificuldades. Esse humor, unido ao jeito descontraído do brasileiro, fizeram com que alguns dos velejadores estrangeiros mais experientes, pensassem em abandonar o projeto, com medo que aqueles “loucos” brasileiros afundassem o barco com eles dentro. Mas, ao final da primeira perna, já vitoriosa, perceberam que aquilo era apenas uma maneira especial que os “brazucas” tinham de tocar sua vida (e sua velejada). A partir de então, a união dentro do barco era visível e agradável. Nos momentos em terra, era mais uma vez esse mesmo bom humor que ajudava a disfarçar a exaustão. Enquanto as outras equipes tinham um ou dois patrocinadores com quem dar a velejada obrigatória, o Brasil tinham quase uma dezena. Descansar nunca esteve na ordem do dia. A sorte tampouco. Mastro quebrado, casco rachado, incêndio a bordo… Eu cheguei a achar que o filme acabaria sendo de uma volta ao mundo que era, sem nunca ter sido. Mas com um comandante como Torben Grael, fracasso não estaria nunca em pauta. Minha câmera registrava dia a dia a deterioração física dos rapazes, mas jamais a moral. Sempre divertidos, solidários, amigos, além de fazer história com aquele pódio divino, me ajudaram a fazer um filme vibrante, divertido, cativante. E fizeram de mim uma eterna amante do mar e da vela. Tanto que, hoje, 10 anos depois, lanço os dois: MAR ME QUER, longa-metragem e livro, onde essa minha nova paixão ( e a eterna, desses lobos do mar) está documentada. Vida longa à vela brasileira!