Opinião do economista Célio Furtado – JIRI GOLFAN/ TECNOLOGIA/ PRECISÃO/

 

DCélio Furtado
*Economista e professor da Univali
celio.furtado@univali.br

O empresário Jiri Golfan faleceu, soube na Missa de Domingo, na Igreja Matriz. Um nome lido quase despercebido, entre outros, pois sabemos que “para morrer basta estar vivo”, assim se expressa o senso comum. Fiquei muito triste com a perda, um europeu estudioso. De fato, Jiri Golfan nasceu na Tchecoslováquia, saiu criança, com a família, fugindo de um sistema opressor e injusto, o tal do socialismo real.

Não éramos próximos, porém nutríamos um respeito mútuo, um diálogo sempre aberto, seu olhar critico, contra o sistema dominante. Eu, inicialmente, um simpatizante do sistema socialista, não acreditava nas vantagens do Capitalismo. Ele, oposto, pois conhecia o sistema, sua família muito sofreu e ele empreendeu no Brasil, mais especificamente em Itajaí. Fundou com o seu irmão, Werner,  a Techno Link, uma empresa metalúrgica, de alta precisão, situada discretamente na av. Contorno sul, á direita de quem está saindo da cidade. Eu tive o privilégio de ser recebido pelo Jiri diversas vezes com os meus alunos, ansiosos por conhecer o “chão de fábrica”, turmas do Curso de Administração da Univali, nas disciplinas de Empreendedorismo e Administração da Produção. Os alunos gostavam do que viam, principalmente, do Laboratório de Metrologia, sofisticado, avançado para o seu tempo. Alta precisão; lembro que o Jiri, pedia para arrancar um fio de cabelo e ampliá-lo no microscópio da empresa, isso impressionava os alunos, impregnados do pensamento da Qualidade Total, que expúnhamos no Curso.  A Techno link recebeu premiação internacional, referência em qualidade em metrologia, um fato que não mereceu o devido destaque, aqui em Itajaí.

c Em outras ocasiões, o  Jiri visitava a nossa turma em sala de aula para falar da sua trajetória vitoriosa como empreendedor, certamente um presente para os alunos, surpresos pela existência de uma pequena empresa tão refinada em sua produção, mais conhecida lá fora. Sempre gostei de mostrar aos meus  alunos o “mundo real”, os desafios concretos do mundo dos negócios. Depois, Jiri Golfan, economista de formação na USP, trabalhando, inicialmente, com Mercado de Capitais,  dedicou-se ao curso de Direito, sendo aluno querido por todos. Nunca mais convivemos, porém, em diversos encontros, comentávamos a crise brasileira, o custo Brasil, a corrupção desenfreada em todas as esferas, municipal, estadual e federal. Havia uma critica ácida ao populismo demagógico que praticamente desmontou a indústria nacional.

Cada vez mais eu me convencia de que as ideias do Jiri eram mais fortes, ou seja, o liberalismo econômico, o valor da concorrência, do empreendedorismo, da necessidade de “menos estado e mais mercado”. Nossas ideias convergiam cada vez mais, falava-lhe das minhas leituras de Ayn Rand, Roberto Campos, Von Mises, e outros autores há muito, conhecidos por ele. Tentei convidá-lo para uma entrevista na Rádio Conceição, porém, respeitei e compreendi a sua recusa. Além da sua discrição pessoal, ser avesso á publicidade, Jiri sabia da quase inutilidade de “dar murro em ponta de faca”. O guerreiro subiu para outras dimensões, fica o belo exemplo de vida, a missão quase impossível de ser empresário no Brasil !


 Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br